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quarta-feira, 4 de maio de 2016

[GPC66] O Perigo dos Animais Peçonhentos


Em quatro páginas distribuídas dentro do Guia (são elas: 18, 25, 32 e 30), encontramos uma reunião de informações importantes sobre acidentes com animais peçonhentos. 

Estas partes do antigo guia de 1966 trazem diversos exemplos das diferenças e peculiaridades de linguagem, cultura e grafia da época.



Esses procedimentos não são 100% corretos. Podemos rever o assunto em uma outra postagem.



terça-feira, 12 de abril de 2016

Preocupe-se com a sua masculinidade

Talvez por algum tipo de orgulho, existe uma tendência entre os homens de pensar que a virilidade acontece quando se afirma que já a tem. Comente com algum homem sobre a crise da masculinidade e ele começará a falar como se estivesse livre disso, como se o resquício de masculinidade que ainda resta no mundo estivesse nele, enfatizando que foi educado na vara de marmelo, que gosta de jogar futebol ou que não é homossexual de modo algum.

Essa reação comum demonstra duas coisas:

  1. Muitos homens andam achando que crescimento em masculinidade ocorre por declaração. Que é algo externo que deve ser demonstrado à terceiros.
  2. Precisamos compreender melhor a crise da masculinidade e que já estamos sendo afetados por ela.

Em algumas postagens iniciais eu tentei definir um parâmetro de masculinidade que estava se perdendo e que iria ser o objeto da busca do Oficina do Homem. Alguns pontos da conhecida "crise da masculinidade" já estavam descritos ali. Mas precisamos falar um pouco mais sobre a importância de identificar e reagir às consequências disso. 

Acontece que quando nós acreditamos que não estamos sendo afetados só por que nos afirmamos muito machos, estamos sendo puramente ingênuos. A destruição de valores masculinos das últimas décadas, no Brasil, deixou poucos tijolos no lugar. A falta de referências viris, o desprezo pelo homem, a quebra das diferenças de gênero e as distorções sobre hombridade deixaram marcas tão profundas que já nem podemos perceber sem um nível maior de atenção e consciência.

Nós estamos vivendo num lixão imaginando que o problema seja a falta de banho de algumas pessoas. 

Se você tomou consciência de que já está sendo atingido, é hora de saber de onde vem os tiros. Só aí você poderá ter qualquer reação efetiva para o próprio crescimento.

1. O desprezo pelo homem

Sem vitimismo. Reconheçamos apenas que após décadas de discursos feministas que classificam homens como opressores, estupradores em potencial e agressores, a dignidade da natureza masculina sofreu. A impressão geral, hoje, é que as características masculinas são negativas, perigosas e até mesmo maldosas. 

Um exemplo de como esse pensamento afeta a vida dos homens são as leis que facilmente afastam homens de suas famílias, como se a presença de um pai numa família fosse uma espécie de risco.

De maneira geral, percebe-se também uma feminilização da sociedade. Isso não significa "imposição feminina", "empoderamento", nem mesmo "valorização feminina". É mais uma força negativa. Condenamos os objetos de interesse e práticas puramente masculinos, forçando homens a viverem como mulheres.

Caçar? Proibido. Comer bem? Faz mal. Cortejar uma pretendente? Assédio. Atirar? Crime. Fumar? Nem cigarrinho de palha. Buscar independência e autonomia? Depende do que o governo acha disso. Vestir-se como um homem? Careta. Exercitar-se? Apenas por estética, se não, violento. Administrar uma família? Machismo.


2. "Gêneros são construções sociais"

Parece algum tipo de brincadeira ou algo absurdo demais para ser uma brincadeira, mas a idéia de que homens e mulheres só são homens ou mulheres na sua parte biológica sexual vem ganhando muito volume nas últimas décadas. Mais e mais gente acredita que a diferença entre os sexos simplesmente não existe, a não ser como uma disposição sexual.

Países inteiros vêm adotando políticas baseadas nessa nova forma de pensar, inclusive o Brasil. Nada resta ao cidadão comum senão perguntar-se se há algo de errado no mundo ou nele mesmo.

A verdade é que isso nunca teve fundamento científico e pode ser desmentido por qualquer percepção realista. Você pode conhecer um pouco mais sobre essa discussão pelo documentário norueguês O paradoxo da igualdade, no qual o comediante com formação em ciências sociais, Harald Eia, investiga o porquê de seus conterrâneos continuarem escolhendo profissões de maneira tradicional apesar de tantas ações governamentais que deram à Noruega o título de país com maior igualdade de gênero.

Mesmo errada, essa concepção traz estragos terríveis:


3. A falta de compreensão da masculinidade

Esse problema é especial no caso brasileiro. Nós apagamos nossas referências e nossos valores de forma tão profunda, que não sabemos sequer para que lado fica essa tal "virilidade". Ser mais masculino, no senso comum brasileiro, tem mais a ver com o verdadeiro oposto da masculinidade.

Poucas pessoas sabem admitir facilmente a idéia de um "homem mais masculino" como alguém compromissado, responsável, disposto ao sacrifício e a defesa. 

Poderíamos classificar algumas das visões do que é masculinidade para os brasileiros em geral:
  • O Crianção. Ser mais homem é gostar de coisas que garotos de 12 anos gostariam. "Homem gosta de video game", "Quadrinho é coisa de homem", "Homem passa o dia jogando e comendo sanduíche" etc.
  • O Gordo. Fazer coisas de homem, para alguns, não é algo muito próximo do que é mostrado no filme Gran Torino, de Clint Eastwood. Seria, na verdade, algo mais próximo do Homer Simpson. "Homem bebe cerveja e assiste futebol". 
  • O Cretino. O espantalho feminista é assumido por alguns homens. São eles que criam discursos vitimistas, odeiam mulheres e imaginam que são mais másculos quanto mais maliciosos, mentirosos, vingativos e agressivos são. "Homem de verdade pega mulher e bate punheta", "Vou te levar para um puteiro para você ser mais homem", "Mulher nenhuma presta".
  • O Efeminado Ideal. Parece até inverossímil, mas muitos dos ícones de masculinidade são reconhecidos assim por que agradam as mulheres, mesmo que sejam efeminados em muitos sentidos. Cabelos e pele bem cuidados, corpo depilado, traços infantis e movimentos delicados. Esses são os mesmos que "servem" às mulheres, não por que são cavalheiros, mas como uma espécie de "amiga útil". Eles pintam as unhas da namorada, fazem brincadeiras fofinhas, etc. "Homem de verdade ajuda a escolher a roupa da namorada".
  • O Musculoso. Com a moda da academia, surgiu a noção de que músculos e virilidade são equivalentes, ainda que isso seja conquistado com hormônios femininos. "Homem de verdade não é frango".
  • O Barbudinho. Na onda dos lumbersexuais, são homens que se vestem como um protótipo de lenhador que não deu certo. A barba voltou a ser um sinal de masculinidade. Basta que você seja barbudo, beba umas brejas e use couro, você pode até beijar outros homens de forma máscula. "Homem de verdade não faz a barba".

Todas essas visões de masculinidade tem algo em comum: elas guardam algo de verdadeiro sobre a masculinidade, mas deturpam isso até o seu oposto. Por exemplo: o macho "musculoso" parte do princípio verdadeiro de que homens tem que cuidar de seu corpo e de suas capacidades, mas esvazia essa atitude, chegando à idéia de aumentar os músculos por futilidades, como para agradar outros homens.

É até previsível que tomemos as coisas assim. Quando se perde o sentido verdadeiro de algo, os detalhes são enfatizados e preenchidos de novos sentidos diferentes.


4. Falta testosterona

É normal que o nível de testosterona caia com a idade de um homem. Mas estudos mostram que o nível de testosterona  em homens vêm reduzindo de maneira generalizada há décadas, chegando hoje a números preocupantes. 

Entre as muitas causas, considera-se o uso de aparelhos celulares (cuidado com eles) e a alimentação. Numa época em que comer carne é quase um crime, não poderia ser muito diferente.

Além disso, a testosterona é muitas vezes relacionada ao comportamento antissocial e ao machismo, o que vêm prejudicando a conscientização dos homens sobre essa queda. 

Ignora-se que o hormônio é essencial para uma boa qualidade de vida e saúde masculina. Considere, por exemplo, que a dificuldade de criar músculos e pelos, depressão, falta de concentração e impotência sexual estão entre algumas consequências da deficiência de testosterona.


5. Consequências

As consequências disso tudo, de maneira geral, é uma geração de homens perdidos em relação a si mesmos, seus papéis e até seus próprios corpos. Não é à toa que o número de suicídios entre homens se tornou uma epidemia mundial. No Brasil, um dos países de maior taxa de suicídios do mundo, o número de casos entre homens superam os entre mulheres. 


6. Conclusão 


São muitos pontos que convergem contra a masculinidade, o que nos trouxe a uma situação insuportável. Preocupar-se com isso e fazer algo para mudar é um benefício para si mesmo e para a sociedade.

Para começar, aceite que essa é a nossa situação. Reconheça os pontos onde está prejudicado. Isso não diminui sua honra ou dignidade, pelo contrário. Só assim você poderá adquirir os meios para se tornar um homem como já quase não se pode ser: um homem de verdade. Este, por acaso, é o propósito desse blog. Conte conosco!




quarta-feira, 6 de abril de 2016

[GPC66] Caléndário de pesca e Náutica


As páginas 20, 21 e 29 do Guia do Pescador e Caçador para o ano de 1966 trazem mais informações  interessantes para pescadores. 

Na página 20, um calendário prático que mostra a influência da lua para a pesca. Na página 21, informações gerais sobre a náutica e algumas denominações que continuam na página 29, abaixo de uma propaganda de artigos marítimos da Ascot.

É interessante como o guia trata de diversos assuntos ao redor da pesca e da caça, o que deixa suas páginas bem inspiradoras.

Atenção para a "Nota!" no fim da página.





quinta-feira, 17 de março de 2016

[GPC66] Socorro de emergência, nós de pescaria e juramento de proteção


Ainda focado na pesca, o antigo guia do pescador e caçador, na página 13, passa algumas informações bem úteis sobre socorro em casos de acidentes. A página seguinte apresenta graficamente alguns nós para pescadores. Na mesma página há também um belo juramento para proteção dos animais e da natureza do país.



quinta-feira, 10 de março de 2016

[GPC66] Regras de segurança do mergulhador, equipamentos de pesca e mais espécies de peixes.


O Guia do Pescador e Caçador para 1966 reúne um monte de informações úteis para pescadores e caçadores da época. Essas três páginas exemplificam como seu conteúdo pode variar. 

Na página 10, "Algums espécimens de peixes do mundo" (atenção para a grafia da época). Na seguinte, uma propaganda de equipamentos de pesca da Az de Espadas, seguida de uma lista de regras de segurança para mergulhadores.




"Lojas Az de Espadas: Só não tem o peixe"

quinta-feira, 3 de março de 2016

[GPC66] Código de Pesca e algumas espécies de peixes do litoral brasileiro


Nas páginas 6, 22 e 24 do Guia do Pescador e Caçador para 1966, podemos encontrar o capítulo VIII do Código de Pesca para aquele ano. O trecho se refere somente à pesca amadora e científica, que eram mais próximas da proposta do livro. 

Se não estou enganado, e me corrijam se for o caso, o código mudou no ano seguinte para o que continua valendo nos dias de hoje. Você pode encontra-lo clicando aqui. O trecho equivalente ao mostrado no GPC66 é o capítulo III.



Na página 22, o Código de Pesca divide espaço com uma representação gráfica de 3 espécies de nosso litoral. Este tipo de desenho era comum numa época em que a reprodução de fotografias não era nada simples.






terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

[GPC66] Curiosidades, anúncio de equipamentos e "horóscopo"


O livro que foi uma das inspirações desse blog tem sua primeira parte mais focada na pesca que na caça. Na página 5, abaixo de um calendário para o ano de 1966, encontra-se uma coletânea de curiosidades sobre peixes, marés e pesca; com o título de "você sabia?".

Virando a folha, na página 7, lê-se uma propaganda de equipamentos submarinos da própria Ás de Espadas. Repare na palavra "conselho" grafada com acento circunflexo.





Há também uma página com o "horóscopo" do pescador. Trata-se das previsões para a prática naquele ano.


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

A importância do esporte


Provavelmente você já percebeu que as academias estão em alta. Talvez nunca tenha sido tão comum associar saúde do corpo e atividade física à participação nesses ambientes. Esse é um cenário estranho que indica uma mudança de pensamento: estamos valorizando menos os esportes e seus objetivos. Mas eles seriam mesmo indispensáveis? A resposta é sim.

O entendimento da importância dessas atividades depende da compreensão de seus objetivos e características originais. Podemos ainda comparar isso com os objetivos das atividades físicas hoje populares para esclarecer o problema de sua desvalorização.


1. Para que serve um esporte

Quando assistimos a um jogo de futebol, por exemplo, imaginamos que tudo que ele envolve é puro divertimento. Isso é assim apenas em parte. Como qualquer jogo, o futebol é divertido e pode estimular rivalidades e apostas, mas não se pode resumi-lo a isso. Não se trata de um amontoado de aleatoriedades para entretenimento. Todo esporte tem a finalidade, às vezes oculta, de guardar um conjunto de capacidades físicas e habilidades.

O futebol, nosso melhor exemplo, ensina habilidades específicas - como controle de objetos no pé, velocidade e força de chute - para qualquer idade. Através da competição nos esforçamos para adquirir essas habilidades, impedindo que elas se percam da sociedade. A tradição esportiva é a maneira ideal de manter uma habilidade pelas gerações. Os antigos sabiam disso, e esse é o motivo pelo qual criavam competições esportivas como preparação física para guerras.

Cada modalidade esportiva guarda habilidades pela tradição. O boxe mantém técnicas de luta, a natação dá continuidade ao nado de velocidade, com o beisebol a reação rápida e a corrida de explosão se mantém vivas entre crianças e adultos. Essa não é a única maneira de se treinar e perpetuar uma habilidade, mas é, com certeza, a principal delas. Daí sua importância.





2. Os benefícios da prática esportiva

Os benefícios de se praticar esportes não se limitam a uma boa saúde e qualidade de vida, como se costuma pregar. Podemos listar três principais:

  1. Técnicas e habilidades. Quem faz um esporte desenvolve diversas capacidades, transferidas pela tradição.
  2. Competitividade saudável. Ao contrário do que se diz, competir não é um pecado. Na competição você aprende a ganhar pelos próprios méritos e esforços, e ainda lida com a derrota e a frustração. Tudo isso é importante desde a infância.
  3. Trabalho em time. Mesmo em esportes individuais a união de esforços para vitória é evidente. Essa característica contribui para uma maior sociabilidade e interação.


3. Comparando

A cultura na qual estamos inseridos perdeu muito dessa noção de esporte ligado a uma tradição útil para o desenvolvimento físico. Os comentários sobre saúde, mesmo de especialistas, vêm cada vez mais ligando a saúde do corpo à forma física. A mania de academia instrumentaliza o exercício e o treino (que são muito necessários) como meio para obtenção de um tipo físico específico que se opõe ao tipo "gordo". Nós estamos, enfim, buscando saúde numa prática ligada a estética.

A consequência disso é a quebra da transmissão de conhecimentos e capacidades típicas da prática esportiva normal. Não queremos mais adquirir habilidades ou desenvolver potências. Queremos força, é verdade, mas raramente aceitamos que ela não venha marcando nossos corpos com músculos.

Se um homem aceita isso, substitui a saúde do próprio corpo e os benefícios da atividade esportiva, necessárias para o trabalho e para a atividade de protetor, por uma vaidade mesquinha. 

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

[GPC66] Sobre pesca submarina, dados importantes e uma piada.


 O Guia do Pescador e Caçador aborda informações interessantes para quem quer se aventurar nessas práticas. Entre elas encontramos três páginas para dados geográficos, textos sobre pesca submarina e uma propaganda em formato de quadrinhos, muito comum na época.




sexta-feira, 5 de junho de 2015

A Saúde dos Homens Antigos 3: O corpo em atividade



Assisti, recentemente, um vídeo teaser para a divulgação de um canal de um personal trainer no Youtube. No vídeo, o homem, cheio  de músculos, declamava frases de motivação e disciplina. Curioso, assisti até o fim e pude ver quando, para fechar a mensagem, ele dizia: "Lembre-se: seu maior patrimônio é o seu corpo".

A idéia que se tem do corpo humano, atualmente, é a de um bem, uma preciosidade que tem fim em si mesma. Se você tem saúde corporal, diz-se, tem sucesso, realização, paz, felicidade. Isso aconteceria quase como uma consequência lógica. Essa concepção tem consequências em nossos comportamentos e mesmo na nossa saúde.Como contraponto a essa idéia, o pensamento de nossos avós era bem diferente. O corpo não era um fim em si mesmo, mas uma parte importante do que somos. É essa visão que vamos explorar aqui. 

Como na postagem anterior dessa série, aviso: O objetivo aqui não é passar receitas e dicas, mas entender as idéias e visões dos antigos sobre a saúde, no caso, do corpo. 

1. Tipo Físico


Uma das consequências da visão atual sobre o corpo é o costume de se dividir três grupos de pessoas: gordos, magros e fortes. Você pode ver isso em qualquer matéria sobre saúde, com raras exceções. Gordos não tem, dizem, saúde. Magros, mesmo que "saudáveis", devem para si em disciplina e força. Os que são musculosos, esses sim, são saudáveis, fortes, vigorosos e disciplinados.

O que é importante observar sobre esse tipo de classificação é que ela se dá de forma muito superficial. É a aparência que determina o seu tipo físico, e por ela você passa a ser considerado saudável ou não, forte ou fraco, disciplinado ou preguiçoso. 

Essa atitude é tão influente que, por exemplo, levou muitos ao consumo de remédios para o crescimento facilitado de músculos. Perceba: Mesmo que não seja nem um pouco saudável, essa foi uma escolha pela saúde e força aparente. Dietas drásticas, cirurgias de risco e exercícios em excesso são outros exemplos dessa influência que considera a aparência antes da verdadeira saúde corporal. Nada disso está acontecendo como simples exceções a uma regra.

2. O corpo para os antigos


A visão que se tinha da saúde corporal pelos antigos era derivada de uma visão diferente sobre a importância do corpo humano, que colocava-o mais perto de uma "ferramenta" e mais longe de um "status". Ou seja, o corpo não era, nessa concepção, um bem em si, mas um meio físico para a ação humana. Toda a idéia de preservar o corpo vivo e forte vinha disso: Devemos cuidar de nossa saúde física para que possamos continuar agindo em nossa existência. 

Não havia porquê deduzir a saúde pela aparência. Se o corpo não provava sua capacidade de realizar ações efetivas, era considerado fraco. Se esse corpo estava doente, dizia-se que faltava saúde, mesmo ao mais musculoso. Se alguém não cuidava de seu corpo com determinação e constância, era um indisciplinado.

Nessa linha, um homem gordo poderia provar seu vigor, força e saúde. Um magro poderia ser forte, se assim demonstrasse. As aparências eram consideradas, mas vinham depois das capacidades e vigor. Hoje sabemos que o fato de alguém ser gordo não é um indício de indisciplina e falta de saúde. A magreza de um homem também não é incoerente a uma força suficiente, mesmo que modesta. 

Quando assim se pensava, a saúde buscada pelos homens era mais realista e efetiva: exercícios e disciplina tinham o objetivo de proporcionar força, vigor e saúde, e não hipertrofia, definições e massa. Hoje, exercícios e disciplina muitas vezes objetivam a estética acima de tudo.

Não podemos concluir disso que antes víamos o corpo como puras máquinas. Também não se imagine que a aparência não era valorizada. Sinais de saúde aparentes, como uma boa pele, cabelos e músculos sempre foram considerados. O que mudou foi em inversão: Hoje temos a estética e o os músculos muito mais em conta do que a saúde em si.

Os modelos de saúde e vigor antigos são uma boa amostra dessa visão. As imagens de heróis como Hércules, Aquiles, Gengis Khan, Átila e outros; destacam antes suas aparências másculas e imponentes que barrigas tanquinho.

3. Atividades Esportivas


Está enganado quem pensa que a única finalidade das atividades esportivas é "modelar o corpo para o verão". Muito além disso, o esporte é uma forma de adquirir e manter habilidades e potencialidades físicas.

Se você quer entender isso, pense em alguém jogando uma bolinha de papel no meio de um grupo de garotos brasileiros. Como você completa a reação do grupo na sua imaginação? Como bom brasileiro, você provavelmente visualiza os meninos matando a bolinha no peito e passando com os pés um para o outro. Isso é assim por que o futebol, tão presente em nosso país, treina o domínio do pé. Generalizando, muitos de nós temos um potencial adquirido pelo futebol, já que praticamos isso desde pequenos.

Nossos avós sempre entenderam isso, aproveitando o que as atividades tem para dar. A idéia se usar desse meio para adquirir potencialidades, tornando-se mais capaz e útil. Essa é a maneira correta para se treinar e condicionar o corpo.

Nesse contexto as academias tinham a função de desenvolver os músculos, aumentando as capacidades. Não eram vistas de forma isolada das atividades esportivas, mas sim como complemento dessas. Hoje, a intenção de se frequentar uma academia é obter apenas músculos. Ou seja: Muitos de nossos homens estão pagando com massa muscular o que devem em habilidades e capacidades, que são realmente essenciais.

4. Conclusão

Temos novamente, por fim, a contradição entre a idéia antiga que se tinha de saúde e as manias recentes, determinadas por modas e descobertas "cientificas". Dos tempos antigos tiramos práticas e concepções funcionais e realistas, mas inseridas num contexto mais exigente. Hoje, apreendemos comportamentos e culturas baseados em enganos bobos, com consequências enormes. Pessoalmente, prefiro seguir o modelo que gerou homens vigorosos e másculos. De hoje me permito aproveitar muitas descobertas e novidades, mas sempre com desconfiança, pois sei que algo mudou para pior.

Veja outras postagens dessa série:

domingo, 17 de maio de 2015

[GPC66] Um Pouco de História


Um dos primeiros textos do velho Guia do Pescador e Caçador se chama "Um Pouco de História". Imagino que a intenção desse material era passar, de forma bastante reduzida, o contexto histórico e econômico em que se encaixam os pescadores e caçadores da época. Além disso, existe um tom muito claro de apelo ecológico, que se manifesta mais diretamente no texto do fim da página 34. 

Perceba as diferenças de grafia e o uso do nome "Estados Unidos do Brasil", que foi oficial até 1969. Repare também nas idéias reproduzidas, que eram bastante adequadas à época. 



sábado, 2 de maio de 2015

A Saúde dos Homens Antigos 2: Uma reflexão sobre comer



Você já viu o café da manhã tipicamente nordestino? Já ouviu falar em um café da manhã britânico? Já conferiu em que quantidades alguns europeus comem queijo? Conhece de perto a ligação do gaúcho com o churrasco? Esses são exemplos resistentes de como se alimentavam nossos ancestrais. Se você reparar bem, muita coisa mudou. A maioria daquilo que era comum há 30, 40 anos atrás é hoje quase um pecado, aceito somente como "bem cultural". 

Mas qual é exatamente a diferença entre nós e nossos antepassados? Como comiam antigamente? Quais os critérios para se comer algo? O que podemos resgatar disso?

Essas são as perguntas que vamos tentar responder nessa postagem. Mas já é bom adiantar: Não vamos criar uma lista de alimentos saudáveis, nem uma dieta. Queremos aqui observar os hábitos alimentares do passado para que possamos melhorar os nossos, através de uma reflexão pessoal.

1. O que mudou


O que mais mudou para a nossa alimentação foi a maneira de escolher os alimentos. Recentemente deixamos de nos preocupar em comer o que nos é acessível, e passamos a poder escolher pratos e ingredientes mais e mais variados. Isso, unido à febre por "comidas saudáveis", resultou em uma atitude cada vez mais preocupada com a escolha dos ingredientes. Como critério de grande importância para essa escolha (quase acima dos gostos pessoais em relação ao sabor da comida), está um "coeficiente de saúde" virtual, atribuído a cada parte de um alimento. Assim, selecionamos meticulosamente nossas refeições, em vista do que é mais saudável.

As informações que determinam o que é saudável, ou não, são recolhidas do senso comum sobre o que a ciência diz sobre o assunto. Em geral, o meio de acesso a essa informação é a mídia de saúde. Nós comemos porque uma revista/programa/documentário/livro nos diz que é saudável. 

Essa ciência, por sua vez, é também, de certa forma, de senso comum. Há um Senso Comum Científico, que é a aprovação ou desaprovação de um conhecimento pela comunidade cientifica. Enfim: Nós nos baseamos quase que exclusivamente em hipóteses de grupos que não compreendemos inteiramente, transmitida por grupos de gente que não conhece o assunto de forma aprofundada. Essas informações são ainda recebidas por grupos dos quais nós fazemos parte, e nos influenciam dramaticamente.


2. Como os homens antigos escolhiam o que comiam


Não esqueça: O hábito de selecionar severamente os alimentos de uma refeição é bastante moderno. As condições em que vivíamos antigamente não nos permitiam comprar alimentos de origem distante ou cultivar qualquer vegetal. Nem mesmo nossos conhecimentos sobre as formas de alimentação ao redor do mundo não era tão vasta para que pudéssemos escolher entre comida  japonesa ou mexicana, por exemplo.

Também lembre que não havia tantos centros urbanos como hoje, em que qualquer um pudesse escolher restaurantes e trocar informações sobre hábitos. Especialmente no Brasil, a cultura rural era muito forte. Em alguns lugares, a variedade ainda está, por exemplo, em que parte do bode comemos. 

Essa limitação é um ponto muito importante: Nossos hábitos alimentares estiveram restritos pelas condições do tempo, espaço e sociedade. A criatividade na combinação de poucos alimentos é uma consequência direta disso. 

Basicamente, escolher o que levar para mesa dependia  de algumas observações:
  • O alimento é venenoso? Considerando que nem todas as comidas eram bem conhecidas, e que não se obtinha tudo em mercados, sempre valia a pena provar, de alguma maneira, que aquilo não traria consequências negativas.
  • O alimento é saboroso? Se sim, valia ainda mais a pena comer. 
  • Quais são os efeitos do alimento? Era essencial conhecer as propriedades das comidas que se levava para a mesa.
Nesse contexto, as receitas e ingredientes eram passados pela tradição. Muitos se mantiveram até os dias de hoje, e muitos deles nós excluímos de nossa dieta em nome da "redução de calorias".

Mas será que isso era saudável para aquelas pessoas? Dentro do significado de saúde para os antigos (que já vimos na primeira parte dessa série), sim. A sabedoria antiga soube, na maioria dos casos, definir os alimentos mais importantes que podiam adquirir, e consumi-los de forma adequada. Sabiam, por exemplo, quais eram as comidas adequadas para aumento da libido sexual, quais eram corretas para se dar a um doente, quais deveriam ser consumidas para manter as forças de uma tropa, etc. 

Diferente dos tempos recentes, não havia uma grande preocupação com as substâncias de um alimento, suas composições químicas, atuação no aparelho digestivo, etc. A preocupação estava, prioritariamente, nos efeitos reais obtidos pelos que consumiam, a curto, médio e longo prazo. 

Comparando melhor a escolha dos alimentos de antigamente e de hoje: Antigamente o consumo dos alimentos dependia dos benefícios ou malefícios reais que eles traziam. Hoje, há um estudo empírico para conhecer as substâncias de cada alimento, sua atuação no organismo e as consequências disso. Esse estudo toma a importância dos efeitos reais, e determinam os pratos do mundo inteiro.

Damos, hoje, uma enorme importância para as hipóteses científicas sobre nossa alimentação, chegando às vezes ao absurdo de colocar isso acima das experiências de efeitos reais para nós. Não há mal em conhecer o que a ciência pode nos dizer sobre nosso consumo de alimentos, mas é uma enorme confusão inverter a ordem das coisas, colocando elaborações teóricas acima dos efeitos constatados pela tradição. Esse quadro piora quando lembramos a fonte de informações que usamos para compreender a "voz da ciência".


3. A ciência e o seu lugar


Não há porquê chegarmos a ser "anti-científicos", jogando fora pesquisas importantes para entendermos nossos hábitos alimentares e seus efeitos. Mas é necessário que entendamos o papel real da ciência nisso tudo, e como ela não pode cobrir a função da tradição na seleção de alimentos.

A ciência nos dá teorias sobre recortes de fenômenos. Podemos , por exemplo, abrir um link na internet que diz que homens que gostam de comida apimentada têm maiores níveis de testosterona. Na matéria, lemos que instituições cientificas usaram amostras de homens com  níveis diferentes de testosteronas para analisar suas preferencias alimentares. Vê? A pesquisa científica recorta um grupo, no caso de pessoas, para analisar seu comportamento em situações específicas, tirando daí constantes. A constante, nesse caso, é a de que mais testosterona "determina" o gosto de homens por pimenta. 

É claro que algumas questões surgem. Uma delas, muito importante, é: O que isso significa?  A ciência é incapaz de nos informar, por exemplo, se a conclusão das pesquisas é boa ou má. Afinal, experimentos científicos não lidam com valores ou com significados, mas com constantes perceptíveis sensorialmente. 

A matéria (que se baseia em outra matéria) arrisca interpretar o fenômeno, e chega, para exemplo, a dizer que grandes quantidades de testosterona em homens deixam eles mais "Imprudentes". A palavra "imprudência" é fortemente valorativa. Indica atitudes impulsivas e desconsideração das consequências. Assumir riscos, sabemos, é agir consciente de que as consequências podem ser ruins. Imprudência é ignorância ou desprezo pelos riscos. Há uma sutil tomada de valores, que atribuem à testosterona uma aura negativa. Por mais científica que a matéria pretenda ser, acaba transbordando suas opiniões e mau caratismo.

Como  não somos cientistas "imparciais" ou péssimos jornalistas, que fique claro: Tomar riscos pode ser uma virtude. Se, por exemplo, precisamos ajudar alguém, mas isso nos apresenta risco de morte, assumir esse risco é um heroísmo. Imprudência, bem diferente, é não considerar risco nenhum, agir de forma burra. Quem escreveu essa matéria disse que a primeira coisa era a segunda, e pretendia falar de algo científico.

Não há porquê desprezar a informação das pesquisas, mas ainda assim há incertezas. Afinal, de quanto é essa determinação do comportamento pela testosterona? Não há uma outra causa para preferência dos homens que não seja hormonal? Por que o método escolhido é mais adequado para conclusão? Essas questões, mesmo que respondidas nos relatórios, podem ser problemas maiores do que imaginamos para os cientistas. Afinal, uma nova pesquisa pode facilmente derrubar esta. 

Tudo isso demonstra como a ciência não pode falar sobre tudo, explicando toda a nossa vida e guiando a sociedade, ao contrário do que a mídia passa se aproveitando para tomar posicionamentos.

Há ainda alguns outros motivos para que não fiemos nossas conclusões nas palavras do cientistas de forma insensata, mesmo longe das revistas cientificas. Listo 6 deles, aqui:

  1. A ciência não confia em si mesma. É parte do método cientifico admitir que os resultados e conclusões de um cientista, mesmo que bem comprovado, devem sempre ser encarados como hipóteses. Eles podem sempre ser contraditos no futuro.
  2. Muitas das pesquisas sérias já foram refutadas. Não são poucos os exemplos de pesquisas influentes que foram "desmentidas". A consequência disso no senso comum que se baseia na ciência é uma enorme confusão. Lembre-se de que "o ovo já foi um inimigo".
  3. Fraude científica existe, e não é pouca. Se você conhece um cientista já deve ter ouvido que não é raro que aconteça, nesse meio, fraudes como invenção de dados, falsificação de experimentos, roubo de pesquisas, recebimento de propinas, etc. Como acontece no jornalismo, estamos sempre contando que sejam éticos em ciência, e esquecemos de que não há nada que garanta isso.
  4. Há fortes interesses em resultados de pesquisas. Há gente poderosa no mundo, e o meio cientifico é sempre uma maneira de exercer poder. Como pesquisas não são de graça, os cientistas devem sempre contar com verbas, seja a fonte qual for. Para isso, muitos precisam provar que os resultados obtidos podem ser interessantes para seus investidores. Essas condições são um estímulo para fraudes.
  5. A discussão é maior que imaginamos. Quando vemos uma matéria que exclama que "segundo a pesquisa...", nem imaginamos que há muito mais por trás. A maioria do que nos chega aqui vêm de revistas internacionais de ciência, e tudo é escolhido pela relevância para o jornal que a reproduz. Essas publicações de fora podem escolher o tema de suas matérias de acordo com seus interesses, e podem estar falando de apenas um ponto dentro de uma confusão entre a comunidade cientifica. Para conhecer o debate cientifico sobe um ponto, nos é exigido muitas vezes saber ler em idiomas diferentes, nos termos dos relatórios.
  6. A ciência não pode entender a realidade. Isso pode levar as mãos das moças à boca, mas é um fato. O cientista, como já vimos, recorta um fenômeno para entender suas constantes. Isso não significa que ele fale de um objeto ou ser, mas de comportamentos repetitivos em condições de laboratório. Se sabemos, por exemplo, que certas substâncias evaporam em determinadas condições, não conhecemos algo em si, mas propriedades abstratas destas coisas. O conjunto dessas propriedades nunca resultam em alguma coisa (afinal, são propriedades abstratas), mas podem ser usadas para entender algo pela razão (não pelo empirismo). 
Sabendo de tudo isso, devemos repensar nossos critérios para escolha de alimentos. Colocar a ciência em seu lugar apropriado é essencial. Com as pesquisas nos informamos sobre possíveis aspectos de nossos hábitos alimentares. Isso acima da tradição baseada nos efeitos reais é modernismo insensato.


4. Antes dos industrializados


Uma das principais e óbvias características da alimentação dos antigos é o consumo de alimentos naturais. Já podemos concluir que a dieta deles era mais saudável do que a nossa, em geral, considerando unicamente isso.

A verdade é que alimentos artificiais e processados costumam levar substâncias tóxicas, grandes quantidades de ingredientes que são menos abundantes em alimentos naturais e que fazem verdadeiro mal, e uma limitada quantidade do que realmente importa. Uma simples margarina é, na prática, gordura vegetal que passou por processos para obter uma melhor aparência e gosto. 

Lembre-se também de que os alimentos adequados ao ser humano sempre foram aqueles extraídos diretamente da natureza. Somos feitos para consumir as coisas "prontas" de fora. Esse artificialismo  de laboratório, tentando criar a composição das nossas comidas, tende a ser muito pouco saudável  por causa disso.




5. Como comer

Se antes eramos menos seletivos que hoje, isso significa que comer era um processo mais "tranquilo". Podíamos nos dar ao luxo de comer o que preferíamos daquilo que sabíamos que era bom, e nos regrar muito menos no hábito alimentar.

Esse é, na verdade, o processo natural da alimentação. É uma atitude muito saudável, mas que hoje precisa de algumas adaptações, já que vivemos uma vida muito mais sedentária do que antes, e perdemos a visão da alimentação como sustento.

O prazer de comer também está em compartilhar
Comer bem significa equilibrar o prazer de comer com a necessidade. É necessário fugir da ilusão de comer como um costume, uma rotina. Comer é uma boa necessidade. Muitos de nossos ancestrais sabiam disso por que precisavam conquistar sua comida, suportando períodos de fome, e satisfazendo-se com grande prazer quando obtinham algo. Esse prazer em comer significa que aquele alimento é bom para o seu corpo (você instintivamente deseja o que precisa) se for natural (sem substâncias que aumentam o prazer com consequências negativas). Comer para o sustento é comer com calma, nos limites de sua fisiologia, o que quer dizer que não existe um padrão universal e que você deve conhecer seus limites e necessidades. Quem pratica esportes, por exemplo, sabe disso: Quando se esta em atividade, comer mais é o ideal, não comer como qualquer um.

Mas isso não significa que só precisamos comer o que gostamos. Deixe de lado toda frescura com seus alimentos. Quem só come o que gosta esta pelo caminho errado, pois se arrisca a deixar de lado alimentos importantes. Você precisa aliar a seus gostos com esforços para comer melhor.

Isso nos leva a outro ponto: a necessidade de se estar atento para não cair na gula. Esse é o extremo contrário de comer mecanicamente, sem satisfação. Você é guloso quando come buscando unicamente o  prazer, enxergando no alimento uma fuga ou satisfação que não está lá. Procure não se permitir comer de tudo, a qualquer hora, e pare de comer quando souber que está satisfeito. Assim você obterá prazer na alimentação, mas sem desregramentos ou frescuras.

6. Sobre a gordura

Saudável? Bah!

Recentemente surgiram confusões nos meios de comunicação "científicos" (veja aqui um exemplo), por que alguns estudos apontam o óbvio: A gordura animal e colesterol estavam sendo condenados de forma exagerada. Nesse caso, o exemplo dos antigos é perfeito. 

Lembro-me de assistir uma matéria do Globo Repórter, em que era mostrado um homem de mais de 100 anos que tinha o hábito de comer pedaços de carne de porco fritos na gordura todas as tardes. A reportagem falava, com surpresa, que "o caso surpreendia os cientistas", e que a explicação arranjada por eles era a de que o trabalho no seu sítio era pesado, e isso compensaria o "pecado" do homem. Ou seja: Um homem de mais de 100 anos come algo que se considera veneno todos os dias, tem forças para trabalhar na fazenda, e é necessária uma explicação de como ele sobrevive a esse veneno? Não seria hora de questionar se é mesmo um veneno? Não está claro que esse é só mais um caso (existem outros, como este aqui) de pessoa que vive uma vida saudável comendo gordura? 

Os nossos avós comiam gordura sim, e muita. Gordura na carne, no leite ou onde fosse. Os povos que incluíam (e incluem) alimentos gordurosos não apresentavam altos índices de morte de jovens ou velhos por doenças cardíacas. As mortes relacionadas à saúde vinham, em sua maioria, das péssimas condições de higiene. Um exemplo apresentado por outra matéria tosca é a longevidade do povo de Icaria, na Grécia. Em uma parte do texto, cita-se:

"'A nossa ideia era de que os maiores riscos para o coração, como diabetes, colesterol alto, fumo, e hipertensão arterial, seriam menores em Icaria, mas nós ficamos muito impressionados quando vimos que estes fatores eram os mesmos que em outras regiões da Grécia e do mundo', conta George Lazaros, cardiologista da Universidade de Atenas.

 A melhor explicação para a longevidade da ilha, vem de uma senhorinha:

"Mas dona Ioanna não hesita quando responde o que viemos saber. Como fazer para chegar na idade dela?
'Meninos, vocês têm que guerrear! Não se deixar vencer por qualquer coisa. Quando algo puxar você para atrás, vão em frente. Em tantos anos, eu não passei por um caminho de flores, mas sim de espinhos, medos, fome. Vi poucas e pequenas flores nestes meus 100 anos', conta a tecelã."

7. Fechando


O significado de tudo isso é que mais do que uma preocupação maluca por seleção de tudo o que comemos, acima de comermos unicamente por rotina, e ainda além de todo exagero à mesa,  comermos para  nosso sustento é essencial. Para isso, devemos estar atentos para as descobertas, mas sempre lembrados das tradições. "O que comer" depende de uma reflexão pessoal sobre o assunto. Tudo isso com uma boa rotina, sem moleza ou fraqueza. Não há, realmente, como manter uma boa vida alimentar como nos velhos tempos, com péssimos hábitos fora da mesa, como nos novos tempos.


Veja outras postagens dessa série:
O que saúde já quis dizer;
O corpo em atividade.

sábado, 18 de abril de 2015

A Saúde dos Homens Antigos 1: O que saúde já quis dizer


"Toddy é gostoso, fortifica e é econômico"

Ao assistir essa antiga propaganda de chocolate em pó de 1958, ficam claras duas coisas: a) As propagandas da época eram muito engraçadas; e b) Os valores sobre alimentação e saúde eram bastante diferente dos nossos atuais.

Qualquer publicitário, mesmo o do fim da década de 50, sabe que deve passar para o público os pontos que lhes interessam. Na propaganda, tudo gira em torno de Economia, Prazer e Saúde. Ao abordar esse último ponto, o comercial deixa em relevo os interesses da época sobre o assunto, os quais usava para convencer seus possíveis compradores. Não importa se o que é dito no vídeo está certo, se o achocolatado realmente era mágico. O fato é que ele prometia algo que as pessoas procuravam. Fica bem claro o que as pessoas buscavam como saúde, o que algo saudável era para eles e que aspectos apresentava alguém que alcançava o ideal nesse sentido. 

Entender essa preocupação com a saúde de outros tempos nos dá algo para pensar: o que mudou, nessa área? Quem esta correto? O que posso aprender com os antigos?

Comecei essa série de artigos sobre o assunto com a intenção de te fazer pensar sobre a sua saúde, como um homem. Não sou um especialista no assunto, mas pesquiso o que posso para buscar uma saúde melhor para mim mesmo. Isso quer dizer que você pode discordar de mim, mas pode também considerar o que é aqui colocado.

Essa série é dividida em 3 postagens, sendo esta mesma a primeira:

- O que saúde já quis dizer;
- Uma reflexão sobre comer;
- O corpo em atividade.

Nesses três artigos espero esclarecer a importância de uma reconsideração sobre o que é saudável para você. Comecemos com nossa introdução.




1. Quem são os antigos?

O pensamento sobre saúde de seus avós, ou mesmo o da propaganda de 1958, é o de outras épocas atrás. Só muito recentemente mudamos nossos referenciais de boa alimentação e saúde. Esta não é uma visão que cada época tem do assunto, é uma única mudança, agora. Então, quando falamos de aprender com os antigos, incluímos diversas épocas que variaram muito pouco a forma de enxergar esse ponto entre si.

É claro que essa é uma visão local. Existem exceções para isso, principalmente fora do ocidente. Mas na sua base, o padrão não sofre mudanças radicais de lugar para lugar. Veja que os ideais de saúde orientais só se diferenciam dos ocidentais em aspectos e prioridades, de forma geral.






2. Quem é e quem era saudável

Como já está certo, o padrão de saúde em outro tempo é estranho para nós. Os pontos que indicavam um homem saudável eram:
  • Força física (não necessariamente músculos).
  • Inteligência.
  • Bom aspecto, beleza.
  • Robustez (não é exatamente ser uma pessoa cheia,  mas certamente era melhor não ser magro).
  • Resistência a doenças.
  • Vida longa

Como comparação, hoje temos como saudável alguém que apresente:
  • Músculos.
  • Magreza (não necessariamente pele e osso, mas não ser gordo).
  • Resistência física.

Sempre de forma geral, a saúde é ainda mais avaliada por ações quase simbólicas. O saudável é aquele que não contradiz os pontos acima e ainda faz academia, não fuma, come comidas leves, participa de corridas, etc.



3. Saúde de ontem e de hoje.




A mudança nessa área, do passado para os dias de hoje, pode ser explicada pela valorização da ciência como critério de verdade, unida a uma preocupação excessiva pelo corpo a partir da segunda metade do século XX. Não é mais necessário ser saudável para viver melhor, trabalhar com mais eficiência e evitar doenças. A busca por saúde se tornou uma busca por um modo de vida ideal, e tinha como fim um culto ao corpo.

Nesses passos, cada vez mais o cuidado com a própria saúde se tornou uma obrigação social, fiscalizada pelos próximos e penalizada com a vergonha pública. É fácil entender isso quando se repara no tratamento da mídia aos famosos "fora de forma".

Todas as formas de alcançar essa saúde "para os outros" estão sendo influenciadas por uma ciência midiatizada. Pesquisas científicas interpretadas por meios de comunicação são criadoras de todo senso comum que rege os indivíduos na busca por uma vida saudável, no sentido moderno do termo.

Não é nem preciso dizer que não é disso que fala a propaganda de achocolatado. No passado os critérios para boa saúde estavam em resultados físicos. Uma pele ruim não poderia ser sinal de saúde, porque uma pele ruim significa que existem problemas no corpo. Um homem fracote não poderisa ser assim tão saudável, porque estava limitado a não cumprir o potencial que seu corpo tem para oferecer. Esses exemplos ilustram como nunca buscávamos cumprir uma meta social, mas aumentar nossas capacidades e possibilidades.

Os critérios para manter a saúde dos nossos antepassados, como já vimos, também mudou dramaticamente. Não havia uma preocupação exagerada por cumprir atividades saudáveis. Ao contrário, muito pouco da rotina dos homens era afetada para manutenção da saúde. Procurava-se viver bem, comer bem e não se destruir. Convenhamos que isso era mais fácil nesses tempos, em que atividades físicas eram normais, comidas de qualidade eram comuns e venenos não eram vendidos em mercearias de bairro como alimentos.



4. Devemos voltar às raízes? Como?

Com dois modelos de saúde que apresentam um abismo entre si, devemos nos perguntar: Que devo buscar? Apesar das futilidades dos dias de hoje, no que acertamos?

Meu conselho é que você aproveite o conhecimento (em pesquisas, não interpretações midiáticas) e os recursos dos dias atuais, mas não se deixe iludir por ideais fúteis e ilusórios. Ao mesmo tempo, conheça e avalie a saúde buscada pelos seus avós. É um antigo conhecimento de qualidade de vida e força que produziu grandes homens. Tínhamos Atilas, Alexandres e Aquiles como modelos, hoje temos o Drauzio Varella.


Nas próximas postagens irei abordar COMO você pode repensar sua rotina e seus objetivos conhecendo melhor os hábitos dos antigos. Começaremos com a alimentação e passaremos para as atividades físicas. 

Até lá, já esqueça as saladinhas de enlatados.

Veja outras postagens dessa série:
Uma reflexão sobre comer;
- O corpo em atividade.