quarta-feira, 4 de maio de 2016

[GPC66] O Perigo dos Animais Peçonhentos


Em quatro páginas distribuídas dentro do Guia (são elas: 18, 25, 32 e 30), encontramos uma reunião de informações importantes sobre acidentes com animais peçonhentos. 

Estas partes do antigo guia de 1966 trazem diversos exemplos das diferenças e peculiaridades de linguagem, cultura e grafia da época.



Esses procedimentos não são 100% corretos. Podemos rever o assunto em uma outra postagem.



terça-feira, 26 de abril de 2016

"Homem não chora": Uma palavra sobre masculinidade e sofrimento


O senso comum nos diz que homem de verdade não chora. Isso pode ser entendido ao pé da letra, como dizer que homens fortes nunca derramam lágrimas, mas também que um homem de verdade não permite que seus sofrimentos o enfraqueçam.

A primeira possibilidade é equivocada. Chorar é uma forma de expressão natural, não pode ser ela mesma uma forma de fraqueza. Choramos quando perdemos alguém, assim como quando lemos uma história emocionante, mas essa mesma atitude pode ser tomada quando cortamos o dedo mindinho. 

A segunda possibilidade de interpretação de "homem não chora" é mais acertada. Quando o choro indica fraqueza, homens não choram. A questão é onde está o limite entre a fraqueza e a expressão legítima de sofrimento. Como um homem lida com o sofrimento?


1. Todo homem sofre, ainda que sem lágrimas

A verdade é que o sofrimento é parte da condição humana. Todo mundo nasceu para saber disso, ainda que tenha se esquecido. "Nós já nascemos chorando", dirá alguém. E não é à toa, pois nascer é nosso primeiro grande sofrimento físico. Nossa história pode ser contada como uma narrativa de nossos sofrimentos. Crianças devem passar por provações físicas e frustrações, adolescentes sofrem com rejeições, adultos sofrem com o peso das responsabilidades, etc. Esperar por uma vida sem sofrimentos nesse mundo é uma ilusão que é fonte de mais sofrimentos. Antes de mais nada, aceite a sua condição e aprenda a viver com ela.


2. O que é sofrer?

O que muitas pessoas não percebem é que sofrimento é um sentimento. Isso quer dizer que ele pode não condizer com a realidade daquilo que vivemos. Se sofremos com algo, isso não é necessariamente ruim, assim como podemos sofrer pouco por algo terrível. 

Isso pode ser um impedimento para resolução de problemas. Existe, então, uma necessidade de domar nossos sentimentos para reagir de forma proporcional às necessidades. Um homem que não faz isso está condenado a ser domado por suas dores, perdendo em vontade, força e até mesmo em sua independência.

Um homem que perde a mulher, por exemplo, pode sofrer de forma normal e compreensível. Mas se esse sofrimento persiste e se sustenta, há ali algo errado que impede a continuidade natural da vida dele. Ele deve domar esse sentimento para viver a própria vida sem deixar de amar e honrar sua mulher, absorvendo a perda em sua biografia.


3. Aprendendo a sofrer

Se uma criança cai e rala o joelho pela primeira vez, vai gritar, chorar e chamar a mãe. Um homem adulto fazendo a mesma coisa seria no mínimo ridículo. Por que as duas reações são tão diferentes? O que muda com o passar dos anos?

Quando a criança se machuca, não sabe calcular o tamanho de seu problema. Ela espera que o conforto de não sofrer permaneça constante e se sente frustrada quando essa expectativa é quebrada. Sua reação é encarar aquilo como um problema maior do que é e clamar pela a ajuda dos pais, dos quais ainda depende. 

Crescendo, lidamos com diversos sofrimentos e aprendemos o que esperar quando algo ruim ocorre. Isso nos faz reagir com mais calma e de maneira independente nessas situações. 

Apesar de esse ser um processo natural, isso pode ser boicotado pela ação dos pais e pela intenção do indivíduo. Um garoto mimado e super-protegido não conhece o sofrimento o suficiente para, na idade adulta, saber o que esperar e como lidar com ele. Isso explica reações infantis diante de sofrimentos bobos e o pavor de algumas pessoas em sofrer, evitando qualquer desconforto. 

O grande problema disso é que, após a infância, precisamos lidar com sofrimentos mais complexos e difíceis. É nessa época que requisitamos atenção e amor de outras pessoas, tentamos nos enquadrar em grupos, assumimos grandes responsabilidades, criamos vínculos e outras mudanças que trazem consigo a possibilidade de grandes sofrimentos desse tipo. Aí a exigência de adaptação é enorme e nos leva a uma situação próxima a das quedas na infância.

Isso significa que devemos continuar aprendendo com sofrimentos avassaladores, o que pede de nós uma forte intenção de enfrentar os problemas ao invés de buscar conforto, fugindo deles.

Se acumulamos experiências desse tipo, vencendo-as, grandes sofrimentos se tornam para nós como um joelho ralado. Dói, mas não importa tanto. A boa notícia é que isso ainda funciona muito bem se as experiências de sofrimento são imaginativas, como se compadecer do sofrimento de alguém ou ler uma história dramática.

Ao final, tudo compensa, pois você ganhará resiliência. Todo homem precisa de uma grande resiliência para resolver problemas, ajudar pessoas e exercer seus papéis.



Aqui podemos responder nossa pergunta: A diferença entre a fraqueza e um choro legítimo é que somos fracos quando o sofrimento nos faz desmoronar e perder a cabeça. O choro legítimo é só uma expressão simples de alguma emoção inevitável, que acontece apesar das nossas forças.


4. Lidando com os sofrimentos como um homem

Ao enfrentar um sofrimento, você pode precisar saber que:

  • Num primeiro momento, o problema assusta, pois não conhecemos suas proporções. Muito das reações exageradas diante de algo ruim vêm desse susto inicial. 
  • Precisamos encarar a situação de forma consciente, sem a intenção de evitar sofrer, mas compreendendo as medidas dos problemas e dando nomes às nossas dores. 
  • Não podemos nos deixar levar pela melancolia, raiva ou tristeza. Essas são visões deturpadas da realidade frutos dos sentimentos negativos que super-valorizamos.
  • É necessário atenção para não se perder a noção do sentido da vida. Nossos motivos para viver, nossas ambições e objetivos estão acima das nossas dores. Saber disso é a maior força contra o sofrimento.


5. "Um mundo sem sofrimentos"

Não é novidade para nós que nossa sociedade é um ambiente de homens fracos e emasculados. Um dos sintomas disso é a falta de capacidade para lidar com a dor. Não há mais a preocupação de enfrentar os problemas, aprender a sofrer e superar as dores. Há, antes, a reivindicação de que não hajam mais sofrimentos.

É com esse espírito que surgiram aberrações como a valorização da vitimização, a punição excessiva por ofensas, a preocupação desproporcional com o bullying, etc. 

Um homem de verdade não compartilha disso pois conhece o sofrimento de perto, como condição humana incontornável. Ele sabe que, antes de pedir ajuda aos pais (ou qualquer outra autoridade) ou cair nas garras do choro fraco, deve estar acordado para o sentido da vida e consciente de sua situação; e assim é forte. 

terça-feira, 12 de abril de 2016

Preocupe-se com a sua masculinidade

Talvez por algum tipo de orgulho, existe uma tendência entre os homens de pensar que a virilidade acontece quando se afirma que já a tem. Comente com algum homem sobre a crise da masculinidade e ele começará a falar como se estivesse livre disso, como se o resquício de masculinidade que ainda resta no mundo estivesse nele, enfatizando que foi educado na vara de marmelo, que gosta de jogar futebol ou que não é homossexual de modo algum.

Essa reação comum demonstra duas coisas:

  1. Muitos homens andam achando que crescimento em masculinidade ocorre por declaração. Que é algo externo que deve ser demonstrado à terceiros.
  2. Precisamos compreender melhor a crise da masculinidade e que já estamos sendo afetados por ela.

Em algumas postagens iniciais eu tentei definir um parâmetro de masculinidade que estava se perdendo e que iria ser o objeto da busca do Oficina do Homem. Alguns pontos da conhecida "crise da masculinidade" já estavam descritos ali. Mas precisamos falar um pouco mais sobre a importância de identificar e reagir às consequências disso. 

Acontece que quando nós acreditamos que não estamos sendo afetados só por que nos afirmamos muito machos, estamos sendo puramente ingênuos. A destruição de valores masculinos das últimas décadas, no Brasil, deixou poucos tijolos no lugar. A falta de referências viris, o desprezo pelo homem, a quebra das diferenças de gênero e as distorções sobre hombridade deixaram marcas tão profundas que já nem podemos perceber sem um nível maior de atenção e consciência.

Nós estamos vivendo num lixão imaginando que o problema seja a falta de banho de algumas pessoas. 

Se você tomou consciência de que já está sendo atingido, é hora de saber de onde vem os tiros. Só aí você poderá ter qualquer reação efetiva para o próprio crescimento.

1. O desprezo pelo homem

Sem vitimismo. Reconheçamos apenas que após décadas de discursos feministas que classificam homens como opressores, estupradores em potencial e agressores, a dignidade da natureza masculina sofreu. A impressão geral, hoje, é que as características masculinas são negativas, perigosas e até mesmo maldosas. 

Um exemplo de como esse pensamento afeta a vida dos homens são as leis que facilmente afastam homens de suas famílias, como se a presença de um pai numa família fosse uma espécie de risco.

De maneira geral, percebe-se também uma feminilização da sociedade. Isso não significa "imposição feminina", "empoderamento", nem mesmo "valorização feminina". É mais uma força negativa. Condenamos os objetos de interesse e práticas puramente masculinos, forçando homens a viverem como mulheres.

Caçar? Proibido. Comer bem? Faz mal. Cortejar uma pretendente? Assédio. Atirar? Crime. Fumar? Nem cigarrinho de palha. Buscar independência e autonomia? Depende do que o governo acha disso. Vestir-se como um homem? Careta. Exercitar-se? Apenas por estética, se não, violento. Administrar uma família? Machismo.


2. "Gêneros são construções sociais"

Parece algum tipo de brincadeira ou algo absurdo demais para ser uma brincadeira, mas a idéia de que homens e mulheres só são homens ou mulheres na sua parte biológica sexual vem ganhando muito volume nas últimas décadas. Mais e mais gente acredita que a diferença entre os sexos simplesmente não existe, a não ser como uma disposição sexual.

Países inteiros vêm adotando políticas baseadas nessa nova forma de pensar, inclusive o Brasil. Nada resta ao cidadão comum senão perguntar-se se há algo de errado no mundo ou nele mesmo.

A verdade é que isso nunca teve fundamento científico e pode ser desmentido por qualquer percepção realista. Você pode conhecer um pouco mais sobre essa discussão pelo documentário norueguês O paradoxo da igualdade, no qual o comediante com formação em ciências sociais, Harald Eia, investiga o porquê de seus conterrâneos continuarem escolhendo profissões de maneira tradicional apesar de tantas ações governamentais que deram à Noruega o título de país com maior igualdade de gênero.

Mesmo errada, essa concepção traz estragos terríveis:


3. A falta de compreensão da masculinidade

Esse problema é especial no caso brasileiro. Nós apagamos nossas referências e nossos valores de forma tão profunda, que não sabemos sequer para que lado fica essa tal "virilidade". Ser mais masculino, no senso comum brasileiro, tem mais a ver com o verdadeiro oposto da masculinidade.

Poucas pessoas sabem admitir facilmente a idéia de um "homem mais masculino" como alguém compromissado, responsável, disposto ao sacrifício e a defesa. 

Poderíamos classificar algumas das visões do que é masculinidade para os brasileiros em geral:
  • O Crianção. Ser mais homem é gostar de coisas que garotos de 12 anos gostariam. "Homem gosta de video game", "Quadrinho é coisa de homem", "Homem passa o dia jogando e comendo sanduíche" etc.
  • O Gordo. Fazer coisas de homem, para alguns, não é algo muito próximo do que é mostrado no filme Gran Torino, de Clint Eastwood. Seria, na verdade, algo mais próximo do Homer Simpson. "Homem bebe cerveja e assiste futebol". 
  • O Cretino. O espantalho feminista é assumido por alguns homens. São eles que criam discursos vitimistas, odeiam mulheres e imaginam que são mais másculos quanto mais maliciosos, mentirosos, vingativos e agressivos são. "Homem de verdade pega mulher e bate punheta", "Vou te levar para um puteiro para você ser mais homem", "Mulher nenhuma presta".
  • O Efeminado Ideal. Parece até inverossímil, mas muitos dos ícones de masculinidade são reconhecidos assim por que agradam as mulheres, mesmo que sejam efeminados em muitos sentidos. Cabelos e pele bem cuidados, corpo depilado, traços infantis e movimentos delicados. Esses são os mesmos que "servem" às mulheres, não por que são cavalheiros, mas como uma espécie de "amiga útil". Eles pintam as unhas da namorada, fazem brincadeiras fofinhas, etc. "Homem de verdade ajuda a escolher a roupa da namorada".
  • O Musculoso. Com a moda da academia, surgiu a noção de que músculos e virilidade são equivalentes, ainda que isso seja conquistado com hormônios femininos. "Homem de verdade não é frango".
  • O Barbudinho. Na onda dos lumbersexuais, são homens que se vestem como um protótipo de lenhador que não deu certo. A barba voltou a ser um sinal de masculinidade. Basta que você seja barbudo, beba umas brejas e use couro, você pode até beijar outros homens de forma máscula. "Homem de verdade não faz a barba".

Todas essas visões de masculinidade tem algo em comum: elas guardam algo de verdadeiro sobre a masculinidade, mas deturpam isso até o seu oposto. Por exemplo: o macho "musculoso" parte do princípio verdadeiro de que homens tem que cuidar de seu corpo e de suas capacidades, mas esvazia essa atitude, chegando à idéia de aumentar os músculos por futilidades, como para agradar outros homens.

É até previsível que tomemos as coisas assim. Quando se perde o sentido verdadeiro de algo, os detalhes são enfatizados e preenchidos de novos sentidos diferentes.


4. Falta testosterona

É normal que o nível de testosterona caia com a idade de um homem. Mas estudos mostram que o nível de testosterona  em homens vêm reduzindo de maneira generalizada há décadas, chegando hoje a números preocupantes. 

Entre as muitas causas, considera-se o uso de aparelhos celulares (cuidado com eles) e a alimentação. Numa época em que comer carne é quase um crime, não poderia ser muito diferente.

Além disso, a testosterona é muitas vezes relacionada ao comportamento antissocial e ao machismo, o que vêm prejudicando a conscientização dos homens sobre essa queda. 

Ignora-se que o hormônio é essencial para uma boa qualidade de vida e saúde masculina. Considere, por exemplo, que a dificuldade de criar músculos e pelos, depressão, falta de concentração e impotência sexual estão entre algumas consequências da deficiência de testosterona.


5. Consequências

As consequências disso tudo, de maneira geral, é uma geração de homens perdidos em relação a si mesmos, seus papéis e até seus próprios corpos. Não é à toa que o número de suicídios entre homens se tornou uma epidemia mundial. No Brasil, um dos países de maior taxa de suicídios do mundo, o número de casos entre homens superam os entre mulheres. 


6. Conclusão 


São muitos pontos que convergem contra a masculinidade, o que nos trouxe a uma situação insuportável. Preocupar-se com isso e fazer algo para mudar é um benefício para si mesmo e para a sociedade.

Para começar, aceite que essa é a nossa situação. Reconheça os pontos onde está prejudicado. Isso não diminui sua honra ou dignidade, pelo contrário. Só assim você poderá adquirir os meios para se tornar um homem como já quase não se pode ser: um homem de verdade. Este, por acaso, é o propósito desse blog. Conte conosco!




quarta-feira, 6 de abril de 2016

[GPC66] Caléndário de pesca e Náutica


As páginas 20, 21 e 29 do Guia do Pescador e Caçador para o ano de 1966 trazem mais informações  interessantes para pescadores. 

Na página 20, um calendário prático que mostra a influência da lua para a pesca. Na página 21, informações gerais sobre a náutica e algumas denominações que continuam na página 29, abaixo de uma propaganda de artigos marítimos da Ascot.

É interessante como o guia trata de diversos assuntos ao redor da pesca e da caça, o que deixa suas páginas bem inspiradoras.

Atenção para a "Nota!" no fim da página.





terça-feira, 29 de março de 2016

O que são medo, covardia e coragem?


O vídeo acima faz rir pela reação de pavor do homem que pensa encontrar um urso real. Perceba que logo após perceber a presença do "urso", ele tem uma reação súbita: virar e correr. A obstinação com que corre e o fato de nem mesmo olhar para trás indicam que esse homem está com muito medo. Não houve tempo para pensar em nada por que ele foi tomado por um instinto de sobrevivência.

Depois de algumas risadas, podemos ser mais justos: Como você reagiria nessa situação? Para responder isso, considere que em algumas regiões do mundo (provavelmente a que acontece a pegadinha está inclusa) a presença de ursos é um risco constante. No Brasil estamos acostumados a vê-los como bichos fofinhos e brincalhões, mas esses animais podem ser extremamente agressivos. Os ataques de ursos são relativamente raros, mas frequentes o suficiente para preocupar pessoas em áreas de risco. 

Alguém tentou se esconder de um urso dentro de um carro.
Parece que isso não impediu o bichinho.
Existe pouco conteúdo sobre esse assunto em português, mas uma busca rápida sobre ataques de ursos em sites na língua inglesa revela uma forte preocupação com a redução desses ataques. Veja, por exemplo, que há uma lista de ataques na Wikipédia em inglês, e diversas páginas ensinando como se proteger desses animais. Não é uma preocupação vã. Ursos em geral não precisam de bons motivos para atacar. São enormes, muito rápidos, muito fortes e estão constantemente mudando de território. Ou seja: Se você morasse em um lugar de risco, uma criatura cheia de instinto e capacidade para matar poderia estar a qualquer momento no seu quintal. 

Sabendo disso, é mais fácil compreender a reação do homem ao encarar um amigo sacana vestido de urso. A preocupação em encontrar um urso negro já deve ser constante naquele ambiente. O medo foi causa de um comportamento quase irracional que pode ocorrer em qualquer um de nós

Isso é assim simplesmente por que somos humanos.

É claro que diferentes homens lidariam com isso de diferentes formas. Mas, em geral, todos estamos susceptíveis ao medo. Pode ser desmoralizante, mas correr como o homem do vídeo não pode ser um motivo para taxá-lo de covarde. 

É isso aí: Medo e covardia são coisas diferentes. Mas o que é medo? E covardia? E onde entra a coragem?


1. Medo

O medo é uma reação do corpo ao perigo ou a alguns estímulos que imitam uma situação perigosa (como assistir um filme de terror). Quando você tem medo, libera adrenalina, cortisol e outros hormônios que te preparam para uma luta ou uma fuga. O cérebro humano está sempre "rastreando" o risco de morte no ambiente. Quando ele interpreta uma situação como perigosa, quer que nos sintamos estressados. Esse é o nosso "modo de sobrevivência".

Esses instintos são uma faca de dois gumes.

Eles são úteis em situações de perigo real. Imagine, para exemplificar, que aquele urso fosse real e o homem não reagisse da mesma maneira. Foi o medo que garantiu a sobrevivência humana num passado repleto de perigos reais.

O estresse em exagero, porém, pode ser um problema. Considere como exemplo que você paralise de medo numa situação em que seu filho precisa de ajuda. Esse é o caso em que medo se torna pavor e nos leva a reações irracionais que podem atrapalhar muito mais do que ajudar.

O remédio para isso é domar o medo ao nosso favor, investindo na presença de espírito. Isso reduz os efeitos negativos trazidos pelo pavor. Além disso, te permitirá tomar decisões baseadas na atuação do estresse em doses saudáveis.


Vamos ilustrar isso com um exemplo: 

Se alguém invadir a sua casa, você pode se apavorar e literalmente defecar nas calças. Isso realmente acontece. Nesse caso, você e sua família estariam em risco, e você não poderia reagir adequadamente. Com uma boa presença de espírito, você não sofreria com a irracionalidade do pavor, mas ainda poderia ser beneficiado pelo estresse. Você poderia contar com um alto nível de atenção para o perigo, distribuição de energia e respiração adequados para o combate, etc.


Mas o que me levaria a colocar minha própria vida em risco dessa forma? A resposta para isso está na definição da coragem e da covardia.


2. Coragem e covardia

O medo não é exatamente um oposto da coragem. As reações corporais ao perigo e o estresse podem conviver com um espírito verdadeiramente corajoso. O verdadeiro oposto da coragem é a covardia.

As reações corporais ao perigo não envolvem valores e questões morais. São causadas por hormônios. Mas como comportamentos de motivação biológica, elas podem ser controladas. A coragem e a covardia são posturas diante do medo.

Ilustração de Davi e Golias


A coragem não é ausência de medo, mas um enfrentamento da situação de risco. Certos momentos exigem que aprendamos a nos colocar em risco, mesmo que o corpo vacile. Em alguns casos, a motivação para isso tem a ver com proteção. Lembre-se de que é dever masculino proteger nossas propriedades, famílias e nos sacrificarmos por aquilo que amamos. Se homens não arriscam as próprias vidas por isso, ninguém mais pode fazer em seus lugares.

A covardia é o apego às reações do medo que encobrem os valores em questão - como a vida de outras pessoas e os compromissos de sacrifício e defesa -, o que nos leva à autoproteção irracional. O covarde não sente mais ou menos medo que o corajoso. Ele só coloca as sensações negativas do medo e a própria vida acima de tudo mais. Essa atitude é obviamente egoísta e, em homens, é digna de desprezo.


Um exemplo para ilustrar essa diferença é o caso do Costa Concordia, cruzeiro que naufragou deixando mortos e feridos na costa da Itália. O capitão abandonou o navio antes de todos os viajantes. Como alguém nessa posição tem um compromisso com a sobrevivência dos passageiros, o homem foi condenado a 16 anos de prisão. O "capitão covarde", como ficou conhecido, priorizou a própria vida, deixando incapazes morrerem.


3. Conclusão


Buscar a verdadeira masculinidade é também aprender a domar os instintos pelo bem daqueles que amamos e nos compromissamos. Um homem honra seus compromissos e busca proteger quem precisa. A coragem é, por isso, um importante valor masculino. 

Mas reagir com coragem também é necessário nos pequenos riscos que medrosamente tomamos como situações de vida ou morte. Conquistar uma garota, falar em público, conseguir um emprego e outras situações desse tipo podem nos despertar as mesmas sensações físicas de estar diante de um falso urso negro. Aí também precisamos desprezar a covardia e buscar a presença de espírito.