terça-feira, 26 de abril de 2016

"Homem não chora": Uma palavra sobre masculinidade e sofrimento


O senso comum nos diz que homem de verdade não chora. Isso pode ser entendido ao pé da letra, como dizer que homens fortes nunca derramam lágrimas, mas também que um homem de verdade não permite que seus sofrimentos o enfraqueçam.

A primeira possibilidade é equivocada. Chorar é uma forma de expressão natural, não pode ser ela mesma uma forma de fraqueza. Choramos quando perdemos alguém, assim como quando lemos uma história emocionante, mas essa mesma atitude pode ser tomada quando cortamos o dedo mindinho. 

A segunda possibilidade de interpretação de "homem não chora" é mais acertada. Quando o choro indica fraqueza, homens não choram. A questão é onde está o limite entre a fraqueza e a expressão legítima de sofrimento. Como um homem lida com o sofrimento?


1. Todo homem sofre, ainda que sem lágrimas

A verdade é que o sofrimento é parte da condição humana. Todo mundo nasceu para saber disso, ainda que tenha se esquecido. "Nós já nascemos chorando", dirá alguém. E não é à toa, pois nascer é nosso primeiro grande sofrimento físico. Nossa história pode ser contada como uma narrativa de nossos sofrimentos. Crianças devem passar por provações físicas e frustrações, adolescentes sofrem com rejeições, adultos sofrem com o peso das responsabilidades, etc. Esperar por uma vida sem sofrimentos nesse mundo é uma ilusão que é fonte de mais sofrimentos. Antes de mais nada, aceite a sua condição e aprenda a viver com ela.


2. O que é sofrer?

O que muitas pessoas não percebem é que sofrimento é um sentimento. Isso quer dizer que ele pode não condizer com a realidade daquilo que vivemos. Se sofremos com algo, isso não é necessariamente ruim, assim como podemos sofrer pouco por algo terrível. 

Isso pode ser um impedimento para resolução de problemas. Existe, então, uma necessidade de domar nossos sentimentos para reagir de forma proporcional às necessidades. Um homem que não faz isso está condenado a ser domado por suas dores, perdendo em vontade, força e até mesmo em sua independência.

Um homem que perde a mulher, por exemplo, pode sofrer de forma normal e compreensível. Mas se esse sofrimento persiste e se sustenta, há ali algo errado que impede a continuidade natural da vida dele. Ele deve domar esse sentimento para viver a própria vida sem deixar de amar e honrar sua mulher, absorvendo a perda em sua biografia.


3. Aprendendo a sofrer

Se uma criança cai e rala o joelho pela primeira vez, vai gritar, chorar e chamar a mãe. Um homem adulto fazendo a mesma coisa seria no mínimo ridículo. Por que as duas reações são tão diferentes? O que muda com o passar dos anos?

Quando a criança se machuca, não sabe calcular o tamanho de seu problema. Ela espera que o conforto de não sofrer permaneça constante e se sente frustrada quando essa expectativa é quebrada. Sua reação é encarar aquilo como um problema maior do que é e clamar pela a ajuda dos pais, dos quais ainda depende. 

Crescendo, lidamos com diversos sofrimentos e aprendemos o que esperar quando algo ruim ocorre. Isso nos faz reagir com mais calma e de maneira independente nessas situações. 

Apesar de esse ser um processo natural, isso pode ser boicotado pela ação dos pais e pela intenção do indivíduo. Um garoto mimado e super-protegido não conhece o sofrimento o suficiente para, na idade adulta, saber o que esperar e como lidar com ele. Isso explica reações infantis diante de sofrimentos bobos e o pavor de algumas pessoas em sofrer, evitando qualquer desconforto. 

O grande problema disso é que, após a infância, precisamos lidar com sofrimentos mais complexos e difíceis. É nessa época que requisitamos atenção e amor de outras pessoas, tentamos nos enquadrar em grupos, assumimos grandes responsabilidades, criamos vínculos e outras mudanças que trazem consigo a possibilidade de grandes sofrimentos desse tipo. Aí a exigência de adaptação é enorme e nos leva a uma situação próxima a das quedas na infância.

Isso significa que devemos continuar aprendendo com sofrimentos avassaladores, o que pede de nós uma forte intenção de enfrentar os problemas ao invés de buscar conforto, fugindo deles.

Se acumulamos experiências desse tipo, vencendo-as, grandes sofrimentos se tornam para nós como um joelho ralado. Dói, mas não importa tanto. A boa notícia é que isso ainda funciona muito bem se as experiências de sofrimento são imaginativas, como se compadecer do sofrimento de alguém ou ler uma história dramática.

Ao final, tudo compensa, pois você ganhará resiliência. Todo homem precisa de uma grande resiliência para resolver problemas, ajudar pessoas e exercer seus papéis.



Aqui podemos responder nossa pergunta: A diferença entre a fraqueza e um choro legítimo é que somos fracos quando o sofrimento nos faz desmoronar e perder a cabeça. O choro legítimo é só uma expressão simples de alguma emoção inevitável, que acontece apesar das nossas forças.


4. Lidando com os sofrimentos como um homem

Ao enfrentar um sofrimento, você pode precisar saber que:

  • Num primeiro momento, o problema assusta, pois não conhecemos suas proporções. Muito das reações exageradas diante de algo ruim vêm desse susto inicial. 
  • Precisamos encarar a situação de forma consciente, sem a intenção de evitar sofrer, mas compreendendo as medidas dos problemas e dando nomes às nossas dores. 
  • Não podemos nos deixar levar pela melancolia, raiva ou tristeza. Essas são visões deturpadas da realidade frutos dos sentimentos negativos que super-valorizamos.
  • É necessário atenção para não se perder a noção do sentido da vida. Nossos motivos para viver, nossas ambições e objetivos estão acima das nossas dores. Saber disso é a maior força contra o sofrimento.


5. "Um mundo sem sofrimentos"

Não é novidade para nós que nossa sociedade é um ambiente de homens fracos e emasculados. Um dos sintomas disso é a falta de capacidade para lidar com a dor. Não há mais a preocupação de enfrentar os problemas, aprender a sofrer e superar as dores. Há, antes, a reivindicação de que não hajam mais sofrimentos.

É com esse espírito que surgiram aberrações como a valorização da vitimização, a punição excessiva por ofensas, a preocupação desproporcional com o bullying, etc. 

Um homem de verdade não compartilha disso pois conhece o sofrimento de perto, como condição humana incontornável. Ele sabe que, antes de pedir ajuda aos pais (ou qualquer outra autoridade) ou cair nas garras do choro fraco, deve estar acordado para o sentido da vida e consciente de sua situação; e assim é forte. 

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