sábado, 20 de fevereiro de 2016

"Dê o fora do meu gramado!" - Masculinidade e propriedade

"Dê o fora do meu gramado!"
Precisamos falar de Gran Torino em outra postagem.

Muito provavelmente você teve brinquedos quando criança. Também é provável que você já tenha mostrado um brinquedo para outra criança, seja um amigo, conhecido ou irmão. Isso significa que você deve ter passado por pelo menos uma dessas situações que muitas crianças passam: 
  1.  A outra criança fica interessada no seu brinquedo. Você percebe, fica enciumado e deixa bem claro: "É MEU!". 
  2. A outra criança toma seu brinquedo e não quer te devolver. Depois de muito tempo você fica irritado e grita: "É MEU!"
  3. A outra criança fica interessada no seu brinquedo. Você percebe e diz: "Quer emprestado?".

Quem passa por situações parecidas começa a lidar com situações que envolvem a idéia de propriedade. Noções de propriedade começam a aparecer em crianças de, em média, 2 anos, mas são nas experiências de relacionamentos que se amadurece nesse sentido

A imaturidade da infância leva a erros muito fáceis de perdoar. A masculinidade, por sua vez, é oposta à criancice, o que faz do aprendizado dos valores relacionados à propriedade uma obrigação para qualquer homem. Isso também é assim por que a propriedade está intimamente ligada aos papéis de um homem e suas responsabilidades.

Há, porém, muita confusão nesse sentido. Devemos acreditar na propriedade como um direito? Não quero aqui defender modelos econômicos, mas partiremos do princípio de que a propriedade privada é um ponto indiscutivelmente justo e necessário para a liberdade. Talvez isso fique mais claro a frente. 


1. Propriedade e família

Como mostra o livro "Luz Sobre a Idade Média", de Régine Pernoud, a relação da masculinidade com a família e a propriedade muda de forma dramática com a passagem da Antiguidade para o período que se convencionou chamar de Idade Média. Antes o homem era o verdadeiro cidadão e proprietário exclusivo de todos os bens da família, tendo sobre eles um poder quase ilimitado. A família, nesse período, está toda submetida a figura do pai, o que incluía os rapazes. Ao pater familias cabia até mesmo a escolha sobre a vida e a morte dos seus filhos, tratados também como propriedades negociáveis. Um homem só se via livre da autoridade de seu pai quando ele morria, e ainda assim havia a possibilidade de que o chefe da família não transmitisse herança através do testamento.

Bem diferente é essa relação na Idade Média. O centro da vida social era, agora, a família. Das tradições pagãs vem a idéia de solidariedade familiar, na qual cada parte contribui com o todo. O pai passa a preencher o papel de administrador, não mais "tirano": "Trata-se de um gerente responsável, diretamente interessado na prosperidade da casa, mas que cumpre um dever mais que exerce um direito", escreve Pernoud. 

O pai medieval, diferentemente do pater familias romano, tinha o dever de cuidar dos que eram mais fracos - as crianças, mulheres e servos. A propriedade estava em sua administração e uso, mas era na verdade um bem da família, que deveria ser transmitido para as próximas gerações. Havia um cuidado para se estabelecer as normas justas de herança, quase sempre sendo o mais velho o maior beneficiado. Ao atingirem a maioridade, os filhos já poderiam ser donos de si, apesar de sempre contarem com o auxílio da família.

Hoje não percebemos regras tão claras, mas elas existem. Com a economia capitalista, a ideia de propriedade privada ganha força, dissolvendo a "propriedade familiar" e a obrigação de a transmitir por herança. Mesmo que ainda se veja muitos filhos herdando casas e bens de seus pais, o normal e esperado é que cada um que se emancipe consiga sua própria moradia e bens através do trabalho. Isso indica que o pai, ainda o proprietário mais comum, guarda a característica de gestor. Ele continua encarregado de manter a prosperidade familiar e proteger os mais fracos de sua família, assim como os medievais. Onde há famílias, há pais que administram as propriedades visando o melhor para sua mulher e filhos, e isso mantém o contraste com o papel do pai romano.

Resumindo, em relação a sua família e propriedades você deve sempre se lembrar que:

1. Sua casa, se é sua propriedade, é sua. Mas ela serve para sua família. É seu dever mantê-la útil e segura para sua mulher e filhos.
2. Edward Coke já disse: A casa de um homem é o seu castelo. Isso significa que ela é o seu refúgio e está submetida a sua administração. Mas isso não te coloca como senhor absoluto de nada. Não há liberdades extremas sem compromissos como no tempo do pater familias.
3. Viver em família significa ter bens só seus e bens compartilhados. Um pai de família provê os bens à sua família, logo é o compartilhador por excelência. Compartilhe com amor e será um exemplo de solidariedade aos seus filhos.


2. Propriedade e solidariedade

A criança da situação 3, do início desse texto, aprendeu que ter algo possibilitava que ele sanasse o desejo e necessidade de outros que não tinham. Não há solidariedade sem que haja propriedade para se abrir mão voluntariamente. Ações como essa foram a base do crescimento de civilizações e estão presentes na estrutura familiar, como comentamos.

É uma possibilidade que suas propriedades sejam usadas e passadas para o bem de outros. Mais ainda, ações desse tipo foram determinantes para que você tenha qualquer coisa que tem hoje. É, portanto, de grande virtude um homem que saiba compartilhar seus bens e praticar a solidariedade. Afinal, masculinidade é sacrifício, não é mesmo?


3. Protegendo o que é seu

"[...] É necessário preservar a propriedade privada; pura e simplesmente por seu outro nome ser liberdade. Por um lado, longe de ser uma mera respeitabilidade convencional, é apenas o homem possuidor de alguma propriedade e privacidade que pode viver sua própria vida livremente." G.K. Chesterton

Ter algo implica responsabilidades. Uma delas é proteção. Ao administrar seus bens tenha em relevo que é seu papel cuidar da segurança deles, o que pode implicar na segurança de sua família. Nunca deixe de se preparar e de se armar para defender aquilo que tem de precioso.

Infelizmente, pela recorrente desvalorização do direito a propriedade privada e o abuso de elites estatais, surge, em nosso tempo, a ação do Estado contra a propriedade, família e indivíduo. Esse cenário desperta a necessidade de combate ao Estado intromissivo, desapropriador e tirânico. Exemplos de homens que verdadeiramente se opuseram a essa situação estão em toda a história do século XX. Sejam em guerras, perseguições políticas ou guerrilhas, nomes de varões que lutaram pela própria liberdade e a de seus familiares brilham na memória comum. Imaginar que vivemos um tempo de segurança democrática permanente, sem risco de ameaças, é um primeiro passo para a derrota e escravidão.

Na defesa do que é seu, lembre-se do que é prioridade: 
  • Nenhum bem material é mais importante que a vida da sua família.
  • Nenhum bem material é mais importante que a sua vida.
  • Alguns bens são mais importante que outros e nem sempre isso se dá pelo valor financeiro.
  • Nem todos os bens valem a vida de um malfeitor.
A Ride for Liberty - The Fugitive Slaves (Eastman Johnson)

4. Conclusão

O homem é frequentemente aquele que administra bens. Seja bens de uma comunidade, Estado ou família, é de sua responsabilidade a prosperidade, bom uso e segurança das propriedades. Homens maduros e que buscam cumprir bem seus papéis tem isso em mente. Esse é o motor de qualquer desenvolvimento material. É essencial, portanto, que nos coloquemos na posição dos grandes homens e trabalhemos pelas nossas famílias, bens e pela nossa liberdade.  

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