sexta-feira, 5 de junho de 2015

A Saúde dos Homens Antigos 3: O corpo em atividade



Assisti, recentemente, um vídeo teaser para a divulgação de um canal de um personal trainer no Youtube. No vídeo, o homem, cheio  de músculos, declamava frases de motivação e disciplina. Curioso, assisti até o fim e pude ver quando, para fechar a mensagem, ele dizia: "Lembre-se: seu maior patrimônio é o seu corpo".

A idéia que se tem do corpo humano, atualmente, é a de um bem, uma preciosidade que tem fim em si mesma. Se você tem saúde corporal, diz-se, tem sucesso, realização, paz, felicidade. Isso aconteceria quase como uma consequência lógica. Essa concepção tem consequências em nossos comportamentos e mesmo na nossa saúde.Como contraponto a essa idéia, o pensamento de nossos avós era bem diferente. O corpo não era um fim em si mesmo, mas uma parte importante do que somos. É essa visão que vamos explorar aqui. 

Como na postagem anterior dessa série, aviso: O objetivo aqui não é passar receitas e dicas, mas entender as idéias e visões dos antigos sobre a saúde, no caso, do corpo. 

1. Tipo Físico


Uma das consequências da visão atual sobre o corpo é o costume de se dividir três grupos de pessoas: gordos, magros e fortes. Você pode ver isso em qualquer matéria sobre saúde, com raras exceções. Gordos não tem, dizem, saúde. Magros, mesmo que "saudáveis", devem para si em disciplina e força. Os que são musculosos, esses sim, são saudáveis, fortes, vigorosos e disciplinados.

O que é importante observar sobre esse tipo de classificação é que ela se dá de forma muito superficial. É a aparência que determina o seu tipo físico, e por ela você passa a ser considerado saudável ou não, forte ou fraco, disciplinado ou preguiçoso. 

Essa atitude é tão influente que, por exemplo, levou muitos ao consumo de remédios para o crescimento facilitado de músculos. Perceba: Mesmo que não seja nem um pouco saudável, essa foi uma escolha pela saúde e força aparente. Dietas drásticas, cirurgias de risco e exercícios em excesso são outros exemplos dessa influência que considera a aparência antes da verdadeira saúde corporal. Nada disso está acontecendo como simples exceções a uma regra.

2. O corpo para os antigos


A visão que se tinha da saúde corporal pelos antigos era derivada de uma visão diferente sobre a importância do corpo humano, que colocava-o mais perto de uma "ferramenta" e mais longe de um "status". Ou seja, o corpo não era, nessa concepção, um bem em si, mas um meio físico para a ação humana. Toda a idéia de preservar o corpo vivo e forte vinha disso: Devemos cuidar de nossa saúde física para que possamos continuar agindo em nossa existência. 

Não havia porquê deduzir a saúde pela aparência. Se o corpo não provava sua capacidade de realizar ações efetivas, era considerado fraco. Se esse corpo estava doente, dizia-se que faltava saúde, mesmo ao mais musculoso. Se alguém não cuidava de seu corpo com determinação e constância, era um indisciplinado.

Nessa linha, um homem gordo poderia provar seu vigor, força e saúde. Um magro poderia ser forte, se assim demonstrasse. As aparências eram consideradas, mas vinham depois das capacidades e vigor. Hoje sabemos que o fato de alguém ser gordo não é um indício de indisciplina e falta de saúde. A magreza de um homem também não é incoerente a uma força suficiente, mesmo que modesta. 

Quando assim se pensava, a saúde buscada pelos homens era mais realista e efetiva: exercícios e disciplina tinham o objetivo de proporcionar força, vigor e saúde, e não hipertrofia, definições e massa. Hoje, exercícios e disciplina muitas vezes objetivam a estética acima de tudo.

Não podemos concluir disso que antes víamos o corpo como puras máquinas. Também não se imagine que a aparência não era valorizada. Sinais de saúde aparentes, como uma boa pele, cabelos e músculos sempre foram considerados. O que mudou foi em inversão: Hoje temos a estética e o os músculos muito mais em conta do que a saúde em si.

Os modelos de saúde e vigor antigos são uma boa amostra dessa visão. As imagens de heróis como Hércules, Aquiles, Gengis Khan, Átila e outros; destacam antes suas aparências másculas e imponentes que barrigas tanquinho.

3. Atividades Esportivas


Está enganado quem pensa que a única finalidade das atividades esportivas é "modelar o corpo para o verão". Muito além disso, o esporte é uma forma de adquirir e manter habilidades e potencialidades físicas.

Se você quer entender isso, pense em alguém jogando uma bolinha de papel no meio de um grupo de garotos brasileiros. Como você completa a reação do grupo na sua imaginação? Como bom brasileiro, você provavelmente visualiza os meninos matando a bolinha no peito e passando com os pés um para o outro. Isso é assim por que o futebol, tão presente em nosso país, treina o domínio do pé. Generalizando, muitos de nós temos um potencial adquirido pelo futebol, já que praticamos isso desde pequenos.

Nossos avós sempre entenderam isso, aproveitando o que as atividades tem para dar. A idéia se usar desse meio para adquirir potencialidades, tornando-se mais capaz e útil. Essa é a maneira correta para se treinar e condicionar o corpo.

Nesse contexto as academias tinham a função de desenvolver os músculos, aumentando as capacidades. Não eram vistas de forma isolada das atividades esportivas, mas sim como complemento dessas. Hoje, a intenção de se frequentar uma academia é obter apenas músculos. Ou seja: Muitos de nossos homens estão pagando com massa muscular o que devem em habilidades e capacidades, que são realmente essenciais.

4. Conclusão

Temos novamente, por fim, a contradição entre a idéia antiga que se tinha de saúde e as manias recentes, determinadas por modas e descobertas "cientificas". Dos tempos antigos tiramos práticas e concepções funcionais e realistas, mas inseridas num contexto mais exigente. Hoje, apreendemos comportamentos e culturas baseados em enganos bobos, com consequências enormes. Pessoalmente, prefiro seguir o modelo que gerou homens vigorosos e másculos. De hoje me permito aproveitar muitas descobertas e novidades, mas sempre com desconfiança, pois sei que algo mudou para pior.

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