sábado, 28 de março de 2015

Uma palavra sobre as carências e libertações

Já falei aqui sobre o fato de que os garotos e homens de hoje se encontram em uma situação difícil, sem uma cultura que os ajude a viver e se orientar considerando sua situação real. As raízes desta desorientação já foram também exploradas, mas faltam pontos a ser tocados sobre isso.




1. O que me falta?


As gerações anteriores à nossa sofreram um processo de perda da cultura masculina e isso chegou até nós de uma forma muito confusa. Se nossos pais esperavam que aprendêssemos o que precisávamos em nossa formação masculina pela vivência, como provavelmente aconteceu com eles, estavam enganados. Se houve um esforço deles para passar o que é preciso, é improvável que fizeram considerando a situação em que estamos inseridos hoje e as deficiências que já tinham. Só recentemente esta situação nos obrigou a uma resistência consciente e direta. Isso quer dizer que durante nosso desenvolvimento não sabíamos ao certo o que fazer, a quem recorrer e nem mesmo se o problema era nosso. Muitos nem sabem se temos algum problema.

Para sair desta confusão precisamos reavaliar nossas prioridades, abandonar velhos costumes adquiridos sem atenção e dar ouvidos as pessoas certas. 

Precisamos nos perguntar seriamente e conscientemente o que é a masculinidade e como buscá-la. Não podemos mais agir como se fossemos adquiri-la naturalmente, simplesmente por que assim queremos.


2. Quem são meus modelos?


O aprendizado de qualquer coisa se dá através da imitação, absorvendo e integrando, para no fim evoluir para o aperfeiçoamento na própria personalidade. As crianças imitam automaticamente os pais e pessoas próximas, e passam a modelos externos com uma certa idade. Quem foram os seus modelos, da sua infância até hoje?

Boa parte dos problemas de amadurecimento e consciência que temos está no fato de que a sociedade não oferece mais bons modelos masculinos. Se os homens em evidência não são emasculados, alegando serem "muitos machos", são geralmente canalhas, machistas (no sentido de desprezar a dignidade das mulheres), infantis e egoístas. Não é que não existam bons homens a se imitar. Existem muitos. O problema é que encontra-los é um trabalho de garimpo.

Para encontrar bons modelos masculinos, foque nestas dicas:

  • Não procure homens em evidência. Há anos a mídia não dá bons motivos de que merece alguma credibilidade neste sentido.
  • Não procure feministas de sinal invertido. Fuja de masculinistas, "da real", ou qualquer outro que queira te convencer que mulheres são inimigas controladoras, ou que homens podem ser superiores a elas.
  • Escute seu avô. Isso é muito importante. O melhor exemplo de bom homem está no passado. Isso não quer dizer que tudo que é antigo é bom, mas que há alguns anos a masculinidade era muito melhor representada que hoje. Não tenha vergonha de se basear nos antigos, e não se prenda a épocas especificas.
  • Não seja superficial. Não basta avaliar se o grupo ou pessoa se veste bem, é educado ou aparenta ser um "bom moço". Seja crítico acerca do caráter e personalidade das pessoas. Antes seguir  um santo fracote que um trambiqueiro machão e elegante. 
  • Mesmo assim, não despreze as características exteriores. Lembre-se: Você quer ser alguém melhor, e isso te chama também para esses pontos externos que refletem a sua personalidade. Ser atento para dentro e desleixado para fora pode ser mediocridade, e isso vale para seus modelos.
  • Olhe para fora do Brasil. Ótimos exemplos de homens são mais abundantes lá fora, pois a cultura de masculinidade é mais desenvolvida em alguns países. Isso não é nenhuma falta de patriotismo, é um fato muito sério ao qual pretendo dedicar um artigo posteriormente. 
  • Aprenda a compreender e converter os exemplos. Se exemplos de boa masculinidade são mais frequentes em outros lugares e tempos, não podemos considera-los de forma fechada e definitiva. Compare as diferentes situações e contextos, converta os costumes ao que é importante aqui e agora e não se permita se deslocar de sua própria cultura e identidade. Comece a compreender bem o que admira nos outros, e separe aquilo que precisa, como precisa.

Mesmo que seus modelos sejam bons e suas idéias estejam mais conscientes atualmente, você ainda é influenciado por aqueles que você imitou no passado. Para que as mudanças positivas que você deseja em ti sejam efetivas, você deve avaliar em você mesmo seus antigos modelos e se libertar daquilo  que te causa contradição.


3. Quem te ajuda?


A masculinidade pode ser buscada de forma solitária. As provas disso são os inúmeros casos de isolamento que tornaram garotos verdadeiros homens, seja no cárcere, seja na exclusão da sociedade, seja ainda em isolamentos intencionais, como certos eremitas.

Mas essa busca se torna mais leve e enriquecedora na maioria dos casos em que é feita acompanhada de amigos e grupos. Isso é assim não só pela base emocional que o apoio externo pode trazer, mas também pela natureza da masculinidade, que é algo que se dá em grupo. Em sociedades que prezam pela masculinidade as coisas de homem são sempre atividades sociais e compartilhadas, que incluem a camaradagem e amizade. 

Nem é preciso dizer que a masculinidade em um grupo é mais difícil para nós, que estamos nos tornando exceções. Essa é uma dificuldade esmagadora para este processo, mas pode ser enfrentada e ensinar mais do que esperamos. Em muitos momentos precismos aprender a ser mais lobos solitários, cavaleiros errantes.

Esse blog é também uma tentativa de reunir homens e trazer esse bom costume de volta.


4. A masculinidade é uma construção.


Precisamos parar de ver a masculinidade como uma fantasia de carnaval que podemos vestir em minutos e exibir como uma realidade, sem muitas preocupações além de que pode coçar. A verdadeira virilidade é um processo de construção constante, que em sua forma ideal começa na infância e só acaba com a vida. Ser um homem viril é nunca desviar o olhar da evolução, achando-se pronto e perfeito. Por mais prejudicados que estejamos, não é o momento de assumir uma auto-imagem de homem, ou lamentar-se por estar longe disso. É o momento de separar os tijolos e empilha-los, com dedicação e paciência. E que se foda o que pensam os outros.

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